Parque Imbuí
Teresópolis, mar/abr.2015 - edição 0010

Quando Ana Ruth completou 50 anos, atingiu o climatério e resvalou em mim. Afetou nossa relação. Chegaram as ondas de calor, a irritabilidade, a crítica aguçada, porque tudo a incomodava, a apatia e o desinteresse sexual.
Tudo mudou e até hoje tento, sem muito êxito, reverter a situação. Dentro desse clima escrevi "Cadê a Ana Ruth?"
Cadê a Ana Ruth?







Cadê a Ana Ruth?
É o que estou procurando...
Esta é a tarefa à qual tenho me dedicado ultimamente. Procuro a Ana Ruth meiga, companheira, simples, que via novidade em tudo. Aquela que com tudo se encantava.
Procuro a Ana Ruth que aos 28 anos de idade me dava toda a sua atenção; me via na sua frente como uma boa aparição.
Procuro a Ana Ruth que enroscou seu caminho e sua vida dentro do meu caminho e da minha vida.
Procuro a Ana Ruth que aprendeu e se acostumou a dormir, acordar e andar comigo para onde quer que eu fosse.
Que ao unir seu destino ao meu me privilegiava com toda a sua atenção. Que não reclamava de nada. Não implicava se as coisas estivessem fora do lugar. Não fechava a cara ao me ver. Pelo contrário: abria um sorriso. O que terá acontecido com a Ana Ruth? Sucumbiu diante do tempo? Transformou-se com a idade?
Ou será que fui eu que mudei? Que eu cansei Ana Ruth com minha eterna presença? Que me tornei um chato, um sem graça, sem novidades? O que será que eu fiz, faço ou deixei de fazer? Como diz minha mãe: "Não se sabe."
O que fez Ana Ruth mudar não se sabe, mas se pode tentar adivinhar. Juntar os cacos e os recacos - palavra que inventei agora - da vida. Revolver o passado. Procurar os erros. Redimir-me dos erros. Lamentá-los. Fazer mea culpa, não importa o que seja, contanto que se traga de volta a Ana Ruth de outrora.
Ah! Que saudade da Ana Ruth de outrora!
Das viagens a dois. Da vida mansa e em cumplicidade. Dos encontros com os amigos comuns. Esse foi o tempo que passou, pois tudo vive sempre passando. Ficaram as lembranças. E com elas, a saudade e a impressão de que se era feliz, e não se sabia.
E o futuro? Por que não se viver o fturo como se viveu o passado? Por que não continuar com a vida simples, reduzindo as cobranças? Redescobrindo o belo debaio os escombros do feio. É agora, nos finalmentes, que se vai precisar um do outro. Um se apoiando no outro.
Aparece, Ana Ruth! Vem ver o que ainda temos mais à frente! Vem gozar comigo este resto de vida, no que poderemos transformar em perene felicidade! Não vamos deixar que o tempo nos abata, nos modifique do que temos de melhor do nosso interior. Pouco podemos fazer quanto à devastação que ele provoca no nosso exterior. Não temos esse poder. Mas o espírito somos nós que fazemos e ele não deve envelhecer.
Não sei se vou ter êxito nesta procura, mas sei que vou continuar tentando. Algo muito forte me leva nessa direção. Algo que me diz: "Saia pra vida! Não desanime! A Ana Ruth - fada de um recente passado - vai ser encontrada! E quando encontrá-la, fale com ela, peça que volte, junte seu olhar ao dela e veja o futuro através de um só olhar!"
Volta, Ana Ruth! Vem usufruir do amor do teu amante que só é velho por fora e que te quer como sempre quis. Não vamos deixar que nossas vidas se esvaziem, porque nossos filhos cresceram, ficaram adultos e tomaram outros rumos. Nós temos um ao outro e isto deve ser suficiente.
O tempo que nos sobra agora precisa de uma oportunidade para se transformar na liga que vai unir ainda mais nossos destinos. Vamos dedicá-lo a nós mesmos. Vamos voltar a ficar juntos de novo para irmos a qualquer lugar que seja. Quando eu sinto a simples sombra da tua presença entro em estado de felicidade, porque Ana Ruth, tu e só tu me basta, me acalma e me dá segurança.
Quero morrer antes de ti, Ana Ruth, porque a vida vai ficar sem sentido, vazia, se a força do teu espírito me abandonar. Serei um marinheiro perdido no oceano da vida, sem rota, sem ancoradouro, condenado a vagar pelo caminho do destino, errante, sem grandeza, sem propósito, sem horizonte.
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Maurício Pinheiro
é reformado da Marinha de Guerra do Brasil e comerciante